segunda-feira, 25 de março de 2019

INFLAMAÇÃO AGUDA: O QUE É E COMO FUNCIONA

Fonte: Pixabay; autor: Hans


Você já viu alguém dizer que está com a garganta inflamada? Foi arranhado ou picado por algum bicho e ficou com a pele meio inchada? Ficou vermelho de tanto ficar no sol? Já se perguntou como que isso acontece lá dentro, no corpo? Essa, geralmente, é a chamada inflamação aguda.

Bom, mas o que seria inflamação? E porque aguda?

Veja um breve resumo deste conteúdo no vídeo abaixo:


Inflamação é a reação da microcirculação induzida por uma agressão aos tecidos, com a consequente movimentação do que está dentro dos capilares sanguíneos como fluidos, células e moléculas, para o espaço extravascular.

FASES DA INFLAMAÇÃO AGUDA

  • Alteração no calibre vascular e, por consequência, aumento no fluxo sanguíneo;
  • Alterações estruturais no comportamento da microcirculação, o que ocasiona um aumento da permeabilidade vascular, ou seja, o epitélio vascular se torna mais permeável, mais... poroso, o que permite a saída de células e moléculas dos vasos para os tecidos];
  • E, por fim, ocorre a migração de células de defesa, que seriam os leucócitos, e o acúmulo no espaço extravascular, onde houve a injúria, ou seja, algum tipo de lesão, grande ou pequena. Enquanto isso, temporariamente o tecido sofre uma perda de função à medida que o organismo faz a reparação tecidual. 



ENTENDENDO AS CAUSAS DA INFLAMAÇÃO 

Como já dissemos, a agressão tecidual é o agente desencadeador da resposta inflamatória, pois isto induz a quebra do equilíbrio nas relações célula-meio, que chamamos de homeostasia.  Essa agressão pode ser de origem biológica, como no caso das infecções e doenças auto-imunes, ou de origens físicas, por algum trauma mecânico, calor ou radiação, ou de origem química.

Na verdade, a magnitude da resposta imune vai depender muito mais da intensidade e do tempo de ação do estímulo agressor do que propriamente do tipo de agressão sofrida. Ou seja, essa intensidade vai depender mais da quantidade do que da qualidade do estímulo. Por exemplo, uma agressão por queimadura na mão possui uma resposta inflamatória muito mais intensa do que um corte no dedo com papel! Em outras palavras, a intensidade da resposta inflamatória, independentemente da causa, será diretamente proporcional á quantidade de tecido lesado. Até porque se a quantidade de tecido lesado for muito extensa, seria mais necessário uma resposta inflamatória muito mais intensa, a fim de solucionar mais rapidamente e mais efetivamente o “problema”.

E qual seria a diferença da resposta imune aguda para com a crônica? Bem, em termos médicos, agudo significa rápido, algo assim, quase que instantâneo, e que ao ser solucionado desaparece muitas das vezes lentamente. Crônico significaria algo mais demorado, mais permanente.

Por isso dizemos que a resposta inflamatória aguda é a primeira linha de defesa do organismo contra um agente agressor, seja de que tipo ele for .  Ela faz parte de uma imunidade inata induzida, de caráter inespecífico, na qual temos uma cascata de eventos geralmente não depende do agente agressor. É algo quase que “no automático", sabe... e agora vamos nos ater à inflamação aguda.

OBJETIVO DA INFLAMAÇÃO

Pra resumir, o objetivo da inflamação é, basicamente, localizar a região agredida, eliminar o agente agressor e remover os tecidos que foram danificados, preparando a área afetada para a reparação. Por isso a inflamação envolve alterações vasculares, celulares e bioquímicas... ou seja, faz um reboliço no teu corpo todo para te ajudar!

Como já dissemos, a resposta aguda é rápida e pode durar de alguns minutos a dois ou três dias. Se for uma agressão transitória, isso é suficiente para eliminá-la. Ela não possui especificidade para combater o agente agressor, e isso ao fato de que os mecanismos envolvidos permitem apenas o reconhecimento de uma lesão aos tecidos e não distinguem o agente agressor e menos ainda o que é próprio ou não próprio do organismo. Se a inflamação aguda não der conta do recado, surge então a inflamação crônica.

Sem mais delongas, vamos ver qual seriam os acontecimentos que se seguem...

VASOCONSTRIÇÃO

Após a agressão tecidual, as arteríolas sofrem vasoconstrição, ou seja, enrijecem e diminuem seu calibre. Isso ocorre como um efeito reflexo, mediado por fibras nervosas autônomas e não dura mais de 5 segundos. A serotonina 5-HT é um mediador químico que age sobre a musculatura lisa vascular, causando a vasoconstrição;

VASODILATAÇÃO

Em seguida ocorre o oposto, a vasodilatação, inicialmente arteriolar e, por consequência, aumento na pressão hidrostática vascular que é chamada de hiperemia. Alguns mediadores químicos envolvidos são a histamina, a bradicinina e prostaglandinas, como as prostaciclinas. Essa vasodilatação provoca um aumento da passagem de fluidos com baixo conteúdo proteico (transudato), ao nível dos capilares, processo que é chamado de transudação. Conforme o sangue passa pelos vasos, capilares e vênulas também se tornam dilatados.

E tudo isso ocorre ao mesmo tempo: enquanto o vaso vai se dilatando, há esse aumento da permeabilidade vascular devido à ação dos mediadores químicos e da pressão vascular aumentada. 

Após a transudação, ocorre então a exudação, que é a passagem de um líquido com maior teor proteico (exudato). Isso resulta na redução do fluxo sanguíneo e da viscosidade do sangue. Enquanto isso, no tecido, a saída do líquido intravenoso ocasiona um aumento da pressão hidrostática neste local, e isso gera o edema, que seria o acúmulo de fluidos no espaço extravascular, ou popularmente falando, o inchaço.
COMO SE DÁ A PASSAGEM DOS LEUCÓCITOS PARA O LOCAL DA INFECÇÃO

Nesta passagem dos fluidos, há também a passagem de diferentes tipos de leucócitos, como neutrófilos, eosinófilos, monócitos e basófilos. Dentre esses, os neutrófilos são as primeiras células a chegarem ao local infectado e já começam a fagocitar bactérias, substâncias estranhas, complexos imunes e mesmo tecidos degenerados. É o “pacman” do sistema imunológico, com o detalhe de que ele também “come” os fantasminhas, e sem a pílula!

Mas essas células não simplesmente entram no tecido junto com o fluido. Para que isso ocorra, eles devem se marginar à parede vascular (chegar na “beirada” da parede do vaso...) o que é permitido devido à diminuição do fluxo sanguíneo. Devem também se aderir ao endotélio para atravessá-lo e migrar para a região em que houve a porosidade, devido á vasodilatação. Para isso, diversos mediadores químicos entram em cena, tanto os liberados pelo tecido lesado, que seriam os endógenos, quanto os de origem microbiana, os exógenos. Esses mediadores expressam e intensificam a ação de moléculas na superfície endotelial que pertencem às famílias das selectinas, das imunoglobulinas e das integrinas.

As selectinas fazem com que os leucócitos tenham uma adesão mais fraca na superfície endotelial, sendo reversível. Com isso, ele passa a rolar sobre a superfície endotelial, o que é conhecido como rolamento. Outras moléculas, como algumas integrinas e outras imunoglobulinas, fazem com que o leucócito pare o rolamento, ou seja, tenha uma adesão mais firme.  Por fim, os leucócitos migram pelos espaços endoteliais, emitindo pseudópodos, aqueles prolongamentos citoplasmáticos, que permite que a célula se “exprema” e saia pelo poro. E, é claro, esse processo também é mediado por diferentes moléculas, como a Interleucina 8 (IL-8) e a MCP , que é a proteína quimiotática para monócitos. Todo esse último processo é chamado de diapedese.  E quando o leucócito atravessa a barreira epitelial, ele fica entre esta e a membrana basal, podendo ultrapassá-la ou ficar por aí mesmo.

Quando os leucócitos chegam ao local da inflamação, eles começam seu trabalho. Fagócitos destroem microrganismos invasores e limpam a região de células mortas ou degeneradas. Eosinófilos atacam helmintos, ligando-se sobre eles e sofrendo desgranulação, liberando citotoxinas, a fim de destruí-los.  
Então é isso pessoal, espero que tenha tirado a sua dúvida e até a próxima!

Referência bibliográfica:
Siqueira Jr., J.F; Dantas, C. J. S. Mecanismos celulares e moleculares da inflamação. 1ª Edição. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan. 2000.


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